Quando vi um exemplar de Lugar Nenhum repousando suavemente em uma das prateleiras do “Armando”, a livraria do meu prédio na universidade, quase fiquei louco. Todos os dias voltando do meu curso de letras eu namorava aquele livro, um amor platônico, parecia uma demoníaca sereia encantando um miserável marinheiro lusitano. Não sei por que ele tinha que ser português, simplesmente era.
Assim que consegui juntar algumas inquietas notas amarelas em meu bolso efetuei a compra do livro que ainda teve que esperar impacientemente O enigma de Andrômeda acabar de ser lido.
Lugar nenhum conta a história de Richard Mayhew, um jovem escocês que vive em Londres. Um cara chato, com um emprego chato, que está em um relacionamento chato e fadado ao marasmo eterno. Alguma semelhança com Fat Charlie?
No caminho para um jantar importantíssimo com o chefe de sua noiva, Richard tromba com Door. Uma garota ferida, suja e esfarrapada que habita uma dimensão paralela ao mundo real. A Londres de baixo. A partir desta situação inusitada (trocadilho infame?), Mayhew passa a ser invisível para os habitantes do mundo normal, não só invisível, mas parece nunca ter existido. Ele está em lugar nenhum.
Logo que descobre não existir mais, Richard se junta com outros moradores do submundo (literalmente) para, além de ajudar Door a solucionar os mistérios que mudaram sua vida, descobrir como voltar para seu antigo dia-a-dia. Nada, porém, é fácil para o grupo formado por Richard, Door e a caçadora Hunter. Vilões atemporais, entidades malignas e até mesmo divindades teimam em ficar no caminho que leva a algum lugar.
Existem autores de imaginação fértil e existe Neil Gaiman. Um homem completamente a frente de seu tempo. Ou o escritor mergulha em alucinógenos antes de deixar sua caneta escorrer pelo papel, ou é dono daquela mente quase infantil, que se recusa a enxergar os problemas e absorver as responsabilidades da vida adulta, que, inevitavelmente, ofuscam o brilhantismo inicial. Se tivesse que escolher, ficava com a segunda opção.
O cenário criado por Gaiman, como sempre, é quase palpável. A descrição de todos os acontecimentos e a naturalidade como são contados fazem parecer que a história sempre esteve lá, em um lugar escondido de nosso cérebro só esperando para sair, esperando as palavras mágicas deste mago das letras. O mundo de baixo descrito pelo autor é, apesar de extremamente complexo e intricado, muito simples e de fácil entendimento. Os personagens principais são tão bem construídos que é impossível não criar um laço afetivo por Richard e companhia. São como velhos conhecidos em um espesso mar de lembranças. A trama é tão bem elaborada que até virou série de TV na Inglaterra.
A narrativa, no entanto, poderia ser melhor. Não sei se foi um problema meu, mas pareci meio sem ânimo para virar algumas páginas do livro. A história se mostrava calma demais, parada demais. Certos momentos da jornada de Richard e Door ficavam quase maçantes. Diferente de outros livros que li.
Lugar Nenhum, assim como os outros trabalhos de Gaiman é mágico. Ele pega uma idéia completamente inverossímil e transforma em algo tão bonito e comum como uma flor que brota em meio ao cimento. Ainda que genial, não possui a desenvoltura de outros escritos do autor, talvez por ser um de seus primeiros trabalhos. Lugar nenhum é amor e ódio, é tudo e nada. Recomendo só para fãs da sensata loucura de Neil Gaiman ou para pessoas de mente muito, muito aberta.
Lugar Nenhum
Editora: Conrad
ISBN: 978-85-7616-265-0
Número de páginas: 384
Escrito por Fernando Portelada
Escrito por Fernando Portelada
Escrito por Fernando Portelada 


