O Espinafre de Yukiko

Março 21, 2009

Sei que o blog está sendo atualizado de maneira porca por estes dias. Acho que entrei naquele estágio da vida que há muito que fazer e quase nada para falar. A boa notícia deste parágrafo introdutório é que já havia começado a escrever outro texto religioso quando tive a ânsia de digitar este. Logo mais vêm atualizações por aí. Enjoy.

Não sou uma das pessoas mais fáceis de conviver, acho que por minhas opiniões fortes e senso de humor ácido, algo que sempre transborda aqui no EntrelinhaZ, deve ser bem perceptível. Uma destas peculiaridades, e talvez nunca antes dita aqui, é o ciúme que possuo de livros. Detesto emprestá-los e da mesma forma evito com violência ler obras que não são minhas. Esta semana passada, quinta feira para ser mais exato, recebi quase uma intimação de uma pessoa muito querida para ler O Espinafre de Yukiko, um de seus livros preferidos.

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O Espinafre de Yukiko, escrito e ilustrado pelo quadrinhista francês Frédéric Boilet, é um Novelle Manga (movimento literário inspirado no Novelle Vague do cinema francês que procura, da mesma forma que seu irmão mais velho, mostrar modos narrativos diferenciados abordando o intimismo e histórias cotidianas em suas tramas) publicado em 2005 no Brasil pela Conrad e conta os amores e desamores de, pasmem, Boilet durante uma viagem ao Japão.

Sim, o cara é autor, ilustrador e personagem principal. Nada, porém, que deixe a história menos agradável. Muito pelo contrário, o ar de “experiência de vida” contido na obra atrai cada vez mais a atenção.

No decorrer desta visita ao Oriente, o personagem de Frédéric conhece Yukiko Hashimoto durante uma apresentação de Novelle Vague. Consegue o telefone da moça e logo se apaixona. Seu sentimento, no entanto, não é correspondido. Yukiko gosta de outro. Devido a uma indisponibilidade momentânea deste terceiro, o casal decide viver uma história entre parênteses. Um amor com prazo de validade.

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A beleza deste conto se dá principalmente pelo seu estilo de narrativa. Assim que conhecemos os termos da relação de Frédéric e Yukiko, acompanhamos cada data na agenda do francês com um aperto no coração. A história é contada como uma lembrança dos encontros da complicada dupla e percebe-se de forma clara que conforme o tempo passa a afinidade dos dois aumenta bastante, mesmo com a consciência do “não gostar” imposta pela situação.

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As ilustrações de Boilet se confundem com a realidade de uma fotografia, o que contribui ainda mais para o clima de veracidade que a história transpira. Os tons de cinza sobrepostos conseguem transmitir com perfeição até mesmo a idéia de movimento e velocidade. Há certas expressões no rosto de Yukiko que parecem saltar do papel e causam até certo choque fazendo com que o leitor pare por vários segundos somente para observar a garota. A maioria das cenas protagonizadas pela musa inspiradora do autor carrega um ar meio surreal, onde os desenhos acabam sendo ofuscados pela paixão de Boilet.

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O Espinafre de Yukiko é de fato um livro marcante. Talvez por me encontrar em um momento que minhas relações interpessoais também possuem prazo de validade, talvez pela profundidade que os personagens e suas caricaturas quase animadas ganham no decorrer da trama, ou, quem sabe, talvez por ser o primeiro livro que recebo emprestado em, sei lá, uns cinco anos. Os cheiros eram diferentes, as páginas tinham outra história pra contar além daquela que estava escrita e, vários pares de mãos repletos de pensamentos diferentes, de sentimentos diferentes já haviam estado lá antes de mim.

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Através de personagens complexos, de um enredo que facilmente cativa aqueles que o lêem e ilustrações únicas e lindas, Frédéric Boilet consegue narrar com perfeição acontecimentos que, se não foram, poderiam ser reais e fazer parte da vida de qualquer um. Da minha ou da sua. O Espinafre de Yukiko traz consigo inúmeros pontos de reflexão pessoal. Definitivamente uma das melhores “graphic novels” que já passaram por aqui.

Apesar de pessoalmente detestar ler no PC, o link de para o download está AQUI. Realmente vale a pena.

E sobre o nome? Bom, só lendo.


Resenha: Watchmen

Março 12, 2009

Assisti domingo passado ao que considero a melhor adaptação de uma história em quadrinhos de todos os tempos: Watchmen.

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Assim como na HQ de Alan Moore e David Gibbons, o filme conta a história dos Watchmen, os vigilantes. Um grupo de super heróis relativamente comuns, ou seja, sem super poderes que mantinha a ordem nas ruas e cumpriam missões governamentais em várias situações. A trama se passa em uma realidade alternativa do século passado, no começo dos anos 80. Vários personagens históricos e eventos marcantes são retratados neste universo paralelo, como Richard Nixon e a guerra do Vietnam.

Watchmen difere das outras histórias de super heróis por focar-se no drama ao invés da ação. Através da Lei Keene, todo e qualquer combatente mascarado é proibido de sair às ruas, o que acaba gerando sofrimento e raiva por parte dos protagonistas. O contexto se desenvolve a partir deste ponto. Heróis acabam ficando loucos, se aposentam, caem em esquecimento ou ainda vivem nas glórias de seu passado.

A pedra fundamental do filme é a Guerra Fria que coloca o mundo em constante estado de tensão com os Estados Unidos e a URSS cada vez mais armados.

Como já dito, Watchmen é uma das adaptações mais fiéis já feitas de uma revista em quadrinhos. Há certas cenas que são idênticas aos desenhos de Gibbons. Li em muitos blogs reclamações sobre o final que foi sutilmente alterado, mas todas as mudanças foram necessárias para atingir o grande público e tornar o filme mais acessível. A história não foi emburrecida. Nunca, mas há de ser lembrado que nem todos são nerds ou se adaptam tão facilmente à ficção científica. Concordo totalmente com a decisão de Gibbons e dos produtores.

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O filme possui uma fotografia genial. As cenas são tão belas que qualquer uma poderia ser congelada e emoldurada na parede. A trilha sonora não fica atrás. Janis Joplin, Hendrix e Leonard Cohen preenchem o fundo do filme com maestria. Até quando se pensa que as músicas não correspondem fielmente às cenas, pegamo-nos encantados pelo resultado.

A melhor parte desta obra, no entanto, é a construção dos personagens e a profundidades que eles conseguem adquirir mesmo sendo em grande número. Rorschach está brilhante. Com ou sem máscara o lobo solitário assume o papel de maior destaque com todas as honras. A mente doentia do herói foi interpretada perfeitamente por Jackie Earle Haley, tanto nos momentos de fúria onde o ator parecia uma pedra de gelo, como em único momento de fraqueza, onde mostrou toda a emoção que o momento carregava. O comediante, Edward Blake, em seus flash backs também transpõe para a tela todas as frustrações de um homem desiludido que viu e fez o mal. Ponto para atuação do ótimo Jeffrey Dean Morgan.

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Apesar de ser o fiel retrato de uma das 100 maiores obras literárias do século XX, Watchmen não agrada todos. Gosto de comparar este filme com outro trabalho do diretor Zack Snyder, 300. A saga de Leônidas tinha uma trama mais óbvia focada na ação e batalhas alucinantes dos espartanos. Watchmen, por sua vez, relata em primeiro plano o drama sofrido pelos heróis perseguidos e forçados a esquecer seu estilo de vida. É como pesar Cidade de Deus com Tropa de Elite. O primeiro mostra, além de tiroteios, o drama da favela e daqueles que lá vivem, enquanto o segundo faz uso de toneladas de violência para passar sua mensagem. Ambos os filmes são bons, mas as massas sempre preferem algo de fácil digestão.

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Watchmen merece ser visto com força. Já disse mil vezes: É lindo. Abra a cabeça, vá ao cinema com calma, já que o filme dura quase três horas, tente se focar na história e nos personagens. Não é Tropa de Elite. Não é 300. Não é um filme de ação. É Watchmen.


Cultura e Pirataria

Março 10, 2009

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O crescente número de produtos falsificados na casa dos cidadãos brasileiros é um dado alarmante para a economia, criando um rombo na indústria com a parca venda dos originais e também nos cofres governamentais devido a não arrecadação de impostos com o paralelismo do mercado pirata que geralmente é administrado por comerciantes informais. De acordo com pesquisa do Ibope o país perdeu mais de 27,8 bilhões somente no ano de 2005 em decorrência dos não originais e mais de 2 milhões de empregos diretos deixaram de ser gerados.

Outro ramo de pirataria que cresce absurdamente é o mercado doméstico com o advento da internet. Downloads ilegais de jogos, filmes, músicas e programas hoje fazem parte do cotidiano de qualquer brasileiro médio. A cultura, por sua vez, ao contrário das grandes empresas que gritam em agonia, agradece.

Este texto não faz apologia à anarquia, aos produtos piratas, ou defende atos ilegais. Defende, porém a cultura acima de tudo. Grande parte da população dos anos 90, principalmente, teve a criação e manutenção do seu gosto musical influenciada diretamente pela internet e pelo download de conteúdo digital. Se cada música ou CD adquirido digitalmente por redes P2P tivesse sido pago, faltaria comida em certas mesas, ou o mais provável, eles não teriam sido comprados e o usuário não apreciaria o belo trabalho de bandas e cantores. Tal fato não é notado somente com músicas, é o conhecimento bruto. Filmes, livros e até mesmo o Microsoft Word usado para escrever este artigo não vieram diretamente da empresa para o consumidor. Algum servidor Torrent ou Piratebay foram usados neste meio tempo. O seu software provavelmente tem a mesma origem, caro leitor. Alguém sabe quanto custa um Windows original, por exemplo?

peru-piracyEm tempos de crise, a cultura sempre prevaleceu. No passado havia a igreja com seu Index de livros proibidos. Livros estes que eram constantemente contrabandeados. Na época ditatorial a censura fazia o mesmo papel do papa. Movimentos de imensa importância, como o tropicalismo, foram criados e formam uma rica mina de cultura para os dias de hoje. Atualmente, com a liberdade imposta pelo século XXI, a única barreira que separa os homens do seu encontro com o conhecimento é a financeira. E como já foi provado historicamente, a cultura há de prevalecer.

O governo brasileiro deveria aprender com o passado. Pífias insinuações com tráfico de drogas e apreensão de produtos ilegais não é a maneira mais eficiente de tentar combater a pirataria. Todos gostariam de possuir um CD com encarte ou um jogo com manual em mãos, mas os altos impostos e abusivas taxas de importação continuam a criar muros em torno da tão desejada cultura.


Resenha: O lutador

Março 2, 2009

Há algumas semanas atrás, no dia 11 de fevereiro, a edição de VEJA que trazia uma matéria de capa meio porca sobre Darwinismo, continha um artigo sobre a trajetória de vida do ator Mickey Rourke, desde sua ascensão promissora no início da década de 80, até o período em que atingiu o fundo do poço e precisou viver de favores. A autora, Isabella Boscov, também abordou, claro, o mais novo sucesso de bilheteria responsável pelo ressurgimento de Rourke e sua indicação ao Oscar de melhor ator em 2009: O lutador. Empolgadíssimo com as ótimas críticas com a possibilidade de ver a atuação de Mickey Rourke novamente em sua melhor forma não demorei a me dirigir para o cinema.

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O lutador conta a história de Randy “O carneiro” Robinson, um, obviamente, lutador profissional que após o auge da sua carreira cai em decadência indo morar em um trailer, lutando por mixarias em um cenário completamente underground, trabalhando como atendente em um super mercado, sendo reconhecido e forçado a encarar sua miséria e vendo sua vida pessoal e emocional desabar por completo diante de seus olhos e acaba sendo impedido de conter tal queda por seu comportamento destrutivo, gênio forte e grande inabilidade em manter sua vida fora dos ringues.

A filmagem parece ser feita sem trilhos. A câmera, apesar de tremida, não chega a incomodar e dá um incrível ar de realidade à película. Algumas tomadas mostram Rourke de perfil em cenas típicas do seu cotidiano devastado. Compras de anabolizantes e grande apego ao seu passado de glórias são alguns bons exemplos.

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Toda a trilha sonora é um espetáculo a parte. Rock dos anos 80 como AC/DC e Guns and Roses tomam conta do ambiente e caem como uma luva no longa. A personalidade do “carneiro” também é uma vívida experiência rock n roll. Live fast die Young.

A atuação de Mickey Rourke é sublime. Os infinitos trejeitos adquiridos, como passar a mão no cabelo ou a batida de cotovelos, saem naturalmente e parecem realmente fazer parte do ator. Tal primor deve-se principalmente a semelhança da vida do próprio Rourke com “O carneiro”, personagem que interpreta. Viajar por este fim de vida dos dois personagens mostrados, o ator e o lutador, vendo quando Rourke enfrenta seu passado e nos dá uma perfeita visão dos sentimentos conturbados do homem que perdeu tudo. O lutador pode não ser o melhor filme da história, mas sem dúvida possui uma das melhores interpretrações já vistas por mim.

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Achar palavras para concluir esta resenha não é tarefa das mais fáceis. É extremamente complicado descrever em frases toda a emoção da performance de Rourke neste filme. Um homem que perdeu tudo interpretando outro. O lutador merece ser visto e revisto quantas vezes for possível.