Singularity 7

Maio 23, 2009

Dar uma volta no Vertigem baixando quadrinhos randômicos na esperança de achar algo de qualidade, coisa que geralmente acontece, é algo mais comum do que vocês podem imaginar.

Alguns dias atrás, durante mais uma peregrinação de rotina, lembrei-me das histórias de Bem Templesmith, autor que já virou até motivo de confusão nos site e, porém, ainda não conhecia. A obra da vez foi Singularity 7.

btsing7-2med

Singularity 7, lançada em 2004 e publicada pela IDW Comics, mostra de maneira bem inovadora um futuro pós-apocalíptico, algo que sempre atrai os fãs de ficção científica. Após a queda de um meteorito na Terra, Bobby Hennigan é possuído por nanorobôs, os nanitas, que, após se fundirem com seu corpo e mente lhe atribuem certas habilidades especiais de controle material, devido sua natureza replicante e transformadora. Obviamente, aos um começo altruísta, onde suas habilidades eram usadas para implantar melhorias no planeta, as coisas saem do controle para Bobby. Sua existência, assim como a de todos os outros começa a mudar.

sk_07_singularity

O traço de Templesmith, apesar de não ser do mais tradicional ou realista, adapta-se muito bem à trama. É algo que mistura um aspecto sombrio e disforme. Perfeito para um mundo modificado artificialmente. As cenas de ação e violência também são bem representadas. Vísceras e sangue explodem de forma brutal pelas parcas páginas do volume.

Este fator, o tamanho da história, seria o único ponto negativo durante a narrativa. Singularity possui somente quatro edições. Devido a sua curta vida os personagens não conseguem se aprofundar tanto quando deveria e, findam sua existência sem mostrar sua real personalidade. Apesar de ser claramente contra a prolixidade, a saga contada por Templesmith é curta demais e parece em certos pontos imprensada ou até mesmo contada com pressa o que acaba por tornar a leitura um pouco decepcionante.

Singularity.7.02.de.04.HQ.BR.18JUN07.Os.Impossiveis.BR.GibiHQ-005

O primeiro contato com as obras de Templesmith não foi dos melhores. Apesar de ler o primeiro volume com voracidade, o final me abateu como uma pá feita de apatia. Para os reais fãs da 9ª arte, com certeza Singularity 7 é algo que merece ser visto e apreciado. Para os não muito familiarizados, a violência exacerbada e a trama meio curta podem assustar. Apesar dos pesares Bem Templesmith merece mais uma chance.

Link para download: AQUI


Umbrella Academy: Surpreendente

Maio 13, 2009

Há alguns dias atrás, conversava com uma amiga na faculdade sobre histórias em quadrinhos, já que ela também admira esse tipo de arte. A pauta da vez era Umbrella Academy, obra ganhadora do prêmio Eisner (o Oscar dos quadrinhos) de melhor série Limitada de 2008, e desenhada pelo excelente artista brasileiro Gabriel Bá, que atualmente trabalha Image Comics. Ambos eram ótimos motivos para cair de cabeça na história. A estranheza, porém, vinha quando citávamos o nome do autor, Gerard Way, o vocalista emo, afetado, e porque não talentoso, da banda My Chemical Romance (MCR).

gerard-way-pic-1

Se por acaso algum emissário do futuro batesse à minha porta com um pôster do MCR, apontasse para o front man e dissesse que eu iria ler e ainda por cima GOSTAR de uma HQ idealizada pelo cara eu o chamaria de louco enquanto o expulsaria com pontapés.

Mas, felizmente, a vida é uma caixinha de surpresas, já dizia Joseph Climber.

UMBACADFCSOL

Umbrella Academy, lançado em 2007 pela Dark Horse Comics, conta a história de sete crianças com poderes especiais nascidas no mesmo dia que são adotadas e treinadas de maneira bem severa (cada criança usa além de seu próprio nome um número de identificação) para salvar o mundo de uma possível catástrofe. Sim, eu sei que parece algo bem ao estilo dos X-men com a escola para humanos especiais, mas não é. Umbrella Academy é surpreendentemente bom.

A sua maior virtude, talvez seja seus personagens absurdamente bem construídos e marcantes. É tarefa das mais difíceis escolher um preferido quando as personalidades começam a ser reveladas. O número 1, por exemplo, é o perfeito herói/líder tomando decisões corretas que visam o bem maior. 2 é um rebelde atirador de facas captando perfeitamente a essência do anti-herói e sendo adorado pelo público (ouvi falar em Hiei de Yu Yu Hakusho ?) 4, por outro lado, é um maníaco depressivo, tímido, retraído e desgostoso com a vida. Sério, há tipos para todos os gostos.

A narrativa também segue de maneira agradável cheia de ganchos para continuações e referências famosas. É impossível não comparar os moradores da academia e suas peculiaridades com a Liga Extraordinária do gênio inglês Alan Moore, influência que Gerard confirma abertamente. Ainda existem vários fatos, mortes e falas não explicadas que espero sinceramente serem aproveitadas em uma futura continuação. Umbrella Academy merece.

O traço de Gabriel Bá é muito bonito. Apesar das cenas em perspectiva não serem das mais detalhadas, como em We3, a ação é mostrada de maneira bem fluída, o que, definitivamente, é essencial para a história. A feição dos personagens também chega a ser algo bem marcante, fazendo forte contraste com a questão psicológica.

tuaseries2cover

Longe da pretensão de ser uma obra genial ou divisora de águas, Umbrella Academy ainda se destaca no âmbito das histórias de super-heróis com seus personagens politicamente incorretos, incoerentes, e muito profundos. Os combates e a violência contidos em seus parcos 6 volumes aumentam ainda mais o gosto bom que a leitura da obra traz. É rápido, é arrebatador e com certeza vai surpreender. Recomendado.

Link Para Download: AQUI (Vertigem)

Para leitura é necessário o CDisplay.


W3: Instinto de Sobrevivência.

Abril 16, 2009

Há certos momentos na vida de um blogueiro (risos) ou escritor (risos histéricos) que algum material salta com força à nossa vista atrapalhando planos e criando um sentimento apaixonado que incita a escrita quase imediata de algo. Isso aconteceu hoje. Havia um texto mal acabado pairando no desktop e outras duas boas idéias na cabeça. Desnecessário dizer que tudo foi empurrado para um canto qualquer. Todo este frenesi foi causado por W3: Instinto de sobrevivência.

WE3_1280x1024

WE3, minissérie escrita por Grant Morrison e desenhada por Frank Quitely, foi publicada no Brasil pela Panini Comics em 2006 e conta a história de três animais domésticos (Um cachorro, Bandit, um gato, Tinker, e um coelho, Pirate) que, após um treinamento feito pelo governo americano e a implantação de modernos exoesqueletos de batalha, tornam-se poderosas armas de guerra, o grupo WE3 (Weapon 3 ou Nós 3, na tradução de um significado subjetivo).

Pela sinopse WE3 parece se tratar de uma história repleta de ação. Quem pensou assim não se enganou. A HQ é Brutal no melhor sentido da palavra. Sangue e selvageria banham as páginas com vários tons de vermelho. Quem pensou, porém, que se trata somente de violência gratuita enganou-se.

005-WE3 002 (Rembrandt-DCP)

Para começar os personagens principais, 1, 2 e 3, cachorro, gato e coelho, respectivamente, são absurdamente bem construídos e com personalidades bem definidas, Bandit segue aquele estilo de melhor amigo do homem, sempre tentando manter a ordem e ser benevolente com a raça humana, Tinker é o espírito livre, reclama de tudo, desconfia de todos, e o coelho, Pirate, é o mais ameno dos três, mantendo o clima entre os dois primeiros em níveis suportáveis. Até as atitudes do trio são pensadas e chegam a causar empatia e comoção nos leitores mais emotivos. O vocabulário dos animais em WE3 é outro grande trunfo. Os bixos se comunicam com uma linguagem fragmentada, um léxico muito escasso, o que carrega as cenas com um tom ainda mais dramático.

011-WE3 002 (Rembrandt-DCP)

O traço de Quitely é lindo. Um dos mais bonitos que já tive o prazer de ver. Somente um artista tão talentoso poderia carregar somente com seus desenhos uma história sem falas da narrativa. O narrador, apesar de obviamente existir, não se manifesta. Toda a trama é contada em diálogos e imagens. O enredo, também é muito conciso. Não deixa pontas soltas, não possui um final que transborda sentimentalismo e o mais importante: não deixa uma indesejada abertura para seqüências mal feitas.

Em suas curtíssimas três edições, WE3 adentra o mundo da ficção científica de forma adulta e polêmica, mesclando doses cavalares de ferocidade com emoção e ternura. O gênio narrativo de Morrison faz com que a obra seja recomendada para todos, inclusive aqueles que não são fãs do gênero. Uma fórmula perfeita de como fazer uma bela HQ.

Os três volumes da série estão disponíveis AQUI.

Para a leitura é necessário o CDisplay.


O Espinafre de Yukiko

Março 21, 2009

Sei que o blog está sendo atualizado de maneira porca por estes dias. Acho que entrei naquele estágio da vida que há muito que fazer e quase nada para falar. A boa notícia deste parágrafo introdutório é que já havia começado a escrever outro texto religioso quando tive a ânsia de digitar este. Logo mais vêm atualizações por aí. Enjoy.

Não sou uma das pessoas mais fáceis de conviver, acho que por minhas opiniões fortes e senso de humor ácido, algo que sempre transborda aqui no EntrelinhaZ, deve ser bem perceptível. Uma destas peculiaridades, e talvez nunca antes dita aqui, é o ciúme que possuo de livros. Detesto emprestá-los e da mesma forma evito com violência ler obras que não são minhas. Esta semana passada, quinta feira para ser mais exato, recebi quase uma intimação de uma pessoa muito querida para ler O Espinafre de Yukiko, um de seus livros preferidos.

1060996_4

O Espinafre de Yukiko, escrito e ilustrado pelo quadrinhista francês Frédéric Boilet, é um Novelle Manga (movimento literário inspirado no Novelle Vague do cinema francês que procura, da mesma forma que seu irmão mais velho, mostrar modos narrativos diferenciados abordando o intimismo e histórias cotidianas em suas tramas) publicado em 2005 no Brasil pela Conrad e conta os amores e desamores de, pasmem, Boilet durante uma viagem ao Japão.

Sim, o cara é autor, ilustrador e personagem principal. Nada, porém, que deixe a história menos agradável. Muito pelo contrário, o ar de “experiência de vida” contido na obra atrai cada vez mais a atenção.

No decorrer desta visita ao Oriente, o personagem de Frédéric conhece Yukiko Hashimoto durante uma apresentação de Novelle Vague. Consegue o telefone da moça e logo se apaixona. Seu sentimento, no entanto, não é correspondido. Yukiko gosta de outro. Devido a uma indisponibilidade momentânea deste terceiro, o casal decide viver uma história entre parênteses. Um amor com prazo de validade.

048

A beleza deste conto se dá principalmente pelo seu estilo de narrativa. Assim que conhecemos os termos da relação de Frédéric e Yukiko, acompanhamos cada data na agenda do francês com um aperto no coração. A história é contada como uma lembrança dos encontros da complicada dupla e percebe-se de forma clara que conforme o tempo passa a afinidade dos dois aumenta bastante, mesmo com a consciência do “não gostar” imposta pela situação.

016

As ilustrações de Boilet se confundem com a realidade de uma fotografia, o que contribui ainda mais para o clima de veracidade que a história transpira. Os tons de cinza sobrepostos conseguem transmitir com perfeição até mesmo a idéia de movimento e velocidade. Há certas expressões no rosto de Yukiko que parecem saltar do papel e causam até certo choque fazendo com que o leitor pare por vários segundos somente para observar a garota. A maioria das cenas protagonizadas pela musa inspiradora do autor carrega um ar meio surreal, onde os desenhos acabam sendo ofuscados pela paixão de Boilet.

113

O Espinafre de Yukiko é de fato um livro marcante. Talvez por me encontrar em um momento que minhas relações interpessoais também possuem prazo de validade, talvez pela profundidade que os personagens e suas caricaturas quase animadas ganham no decorrer da trama, ou, quem sabe, talvez por ser o primeiro livro que recebo emprestado em, sei lá, uns cinco anos. Os cheiros eram diferentes, as páginas tinham outra história pra contar além daquela que estava escrita e, vários pares de mãos repletos de pensamentos diferentes, de sentimentos diferentes já haviam estado lá antes de mim.

019

Através de personagens complexos, de um enredo que facilmente cativa aqueles que o lêem e ilustrações únicas e lindas, Frédéric Boilet consegue narrar com perfeição acontecimentos que, se não foram, poderiam ser reais e fazer parte da vida de qualquer um. Da minha ou da sua. O Espinafre de Yukiko traz consigo inúmeros pontos de reflexão pessoal. Definitivamente uma das melhores “graphic novels” que já passaram por aqui.

Apesar de pessoalmente detestar ler no PC, o link de para o download está AQUI. Realmente vale a pena.

E sobre o nome? Bom, só lendo.


Eu sou a Lenda: Livro X Filme.

Janeiro 17, 2009

Não havia chegado a comentar, mas Eu sou a Lenda é, para mim, não só um dos melhores filmes de 2007, mas um dos melhores de todos os tempos. Todos os leitores assíduos (isso mesmo, vocês três) já perceberam o quanto gosto de vampiros/lobisomens/zumbis/futuros pós-apocalípticos, e uma história que retrate dois desses aspectos combinados como um lanche do Mc Donnalds merece atenção redobrada.

Depois de ver o longa umas três vezes se não me engano, a Novo Século lançou aquela ediçãozinha bonita do livro de Richard Matheson que eu insistia em namorar em toda vitrine de livraria até que finalmente nesse fim de ano o ganhei de natal de minha querida progenitora. Imediatamente seria distante demais do momento em que comecei a folhear o volume e devorar a história.

richard-matheson-eu-sou-a-lenda

Acho que foi o primeiro caso em que vi uma adaptação MELHOR que a obra original. Sério, todos da série Harry Potter, O Enigma de Andrômeda (que vi ontem, por acaso), Timeline, ambos e Michael Crichton, são ótimos exemplos, mas Eu sou a Lenda filme é tão foda, tão foda que o livro fica para trás. É ruim? Nunca na vida. Melhor? Também não.

Aviso de Spoiler. Se você não tem nenhum interesse em ler o livro é só clicar abaixo e continuar lendo, caso contrário pare por aqui.

Leia o resto deste post »


Sandman e seu lançamento pela Pixel

Outubro 28, 2008

Meus sentimentos por Sandman, brilhante série de Neil Gaiman, sempre foram muito respeitosos. Como falei por aqui, conheci o mundo dos quadrinhos há pouco tempo, mas já tive a oportunidade de ler grandes obras como Watchmen e Preacher. O que não foi dito, é que não possuo essas revistas. Li por meio de scans em meu computador. É feio, eu sei.

A literatura é uma das poucas artes que realmente tenho MUITA pena de piratear, seja por ser a área que escolhi como profissão ou porque é extremamente mais prazeroso segurar o livro em mãos, sentir a textura, cheiro e etc. Sandman, por outro lado, é importante demais, é genial demais para ser lido de uma forma fria e impessoal.

sandman

Já conhecia o trabalho de Gaiman por intermédio de romances como Filhos de Anansi ou Deuses Americanos e, por se tratar de meu autor internacional preferido, e por motivos citados anteriormente, deixei Sandman de lado devido ao seu preço e só voltaria a prestar atenção na série quando fosse economicamente saudável. Agora, já é.

Recentemente a editora nacional Pixel Media começou a relançar os volumes da série. Não são aqueles lindos livros de capa dura da Conrad, mas ainda assim é um trabalho muito bem feito, todo em papel especial envernizado e recolorizado nos Estados Unidos, onde foi lançado em uma edição chamada Absolut Sandman.

capa_sandman1_pen_baixasmall

Há também muitos extras inéditos no Brasil, que mostram desde a criação do personagem e sua apresentação à DC comics, até o processo de criação de capas com comentários dos autores. Algo que realmente faz da revista uma peça única.

O primeiro volume, Sandman: Prelúdios e Noturnos, já está disponível e custa R$ 29,90 em bancas ou livrarias. Comprei o meu, porém, em promoção na Saraiva por R$ 23,00. A série será publicada trimestralmente, o que não deve apertar o bolso de ninguém.

A importância de Sandman para, não só o mundo das histórias em quadrinhos, mas para o mundo literário como um todo é inegável. A maestria da retórica de Gaiman ao brincar com o inconsciente e o mitológico explorando (mais uma vez) o mundo dos deuses alternativos que caminham entre os humanos, combinada com o traço simples e ao mesmo tempo incisivo de Sam Kieth e Mike Drindenberg incentiva a leitura até mesmo daqueles que não são lá muito chegados em livros.

A iniciativa da Pixel, também, é louvável. O relançamento das edições com um custo mais acessível à maioria da população pode ajudar a difundir ainda mais essa obra prima da nona arte e desmitificar a lenda de que história em quadrinhos é coisa de criança.

Bons sonhos!


Ex Machina

Outubro 18, 2008

Sempre tive uma relação de amor e ódio com Histórias em Quadrinhos. Há algum tempo atrás, durante meu frenesi literário de 2005/2006 tinha uma completa aversão a tudo que tivesse desenhos ou ilustrações de qualquer tipo. Hoje vejo que deixei de pôr as mãos em muita coisa boa naquela época.

A situação só começou a mudar de verdade quando no começo do ano, durante a sétima semana de letras na UFMA, fiz um mini-curso sobre a linguagem nos quadrinhos. O professor, Bruno Azevedo, lançou à turma uma ampla visão sobre a história dos quadrinhos, seu contexto político-social e até mesmo sobre a lingüística por trás das comics. Simplesmente lindo.

Foi com esse espírito de descobrimento que naquela mesma época timidamente fui à minha biblioteca procurar um exemplar de Stardust que havia sido comprado, mas nunca lido.

Desde então tenho visto o mundo dos quadrinhos (ou Graphic Novels) com novos olhos e me interessado (muito) por algumas séries. Nada de super heróis ou personagens muito tradicionais, já que teria de ler milhões de arcos, centenas de revistas para entender porque fulano morreu três vezes ou porque cicrano tem um clone. Minha verdadeira paixão tem sido as histórias menos “populares” como Wanted (que li antes de ver o filme), Preacher, Watchmen e Ex Machina. E é desta última que hoje vos falo.

capa_exmachina01_encadernado_baixasmall

Nunca tinha ouvido falar desta mini série, havia visto sim exemplares na banca, mas nada que me chamasse atenção. Ontem caminhava pelo shopping tentando garimpar alguma preciosidade no mar de nada que se encontram as atuais prateleiras de comics em São Luís quando me deparo com o encadernado completo da série. O preço estava bom e era o último exemplar, fato que me incentivou mais ainda a comprá-lo.

Ex Machina, escrito por Brian Vaughan, conta a história de Michael Hundred, o único super herói do mundo com poderes de verdade, que, após revelar sua identidade e abandonar a máscara, é eleito prefeito da cidade de Nova York logo após os atentados de 11 de setembro.

O contexto é de certa forma cheio de paradoxos, a dualidade da vida de Hundred como herói e como político se mistura todo o tempo com os constantes ataques que o protagonista sofre no decorrer da trama. Há, além de um enredo histórico, comentando a queda das torres e o sofrimento por trás de um herói que pena por não ter conseguido salvar todos no atentado, várias questões controversas como investimentos para a educação ou casamento de homossexuais. A verdade por trás dos poderes do prefeito Hundred também é “explicada” em flashsbacks no decorrer da revista.

Ex_Machina_21_800x600

O traço da obra, feito por Tony Harris, é de extremo bom gosto e de realismo impressionante. Um dos mais bonitos que já vi. Nas cenas de ação, que na verdade não são tantas, o desenho mostra uma arte ao mesmo tempo simples e incisiva. Algo que o acerta como uma marreta na têmpora direita.

O único ponto negativo da série é o número de volumes. São somente três fascículos na versão brasileira e sete volumes na história toda. Apesar de ABSURDAMENTE curta, Ex Machina jamais será obscurecida por sua pouca duração.

Peguei Ex Machina completamente no escuro. Não havia pesquisado nada sobre a obra e nem sou tão conhecedor deste tão complicado universo para saber a biografia do autor e avaliar seu talento só de ouvir o nome. Ao ler o depoimento deixado pelos irmãos Wachowski e descobrir pela capa que a série havia ganhado o prêmio Eisner como melhor nova série de 2005 fiquei mais seguro ao abrir a carteira. Melhor decisão dos últimos tempos.

Ex machina, na falta de palavras menos brutas para expressar um sentimento de satisfação tão grande, é FODA, e apesar do amargo gosto de “quero mais” que deixa ao final de suas 150 páginas merece ser lido e relido várias vezes.

PS: Pesquisei outra obra do mesmo autor de Ex machina, Y: The last Man. Estou lendo loucamente, é MUITO bom.


Resenha: Lugar Nenhum

Setembro 28, 2008

Quando vi um exemplar de Lugar Nenhum repousando suavemente em uma das prateleiras do “Armando”, a livraria do meu prédio na universidade, quase fiquei louco. Todos os dias voltando do meu curso de letras eu namorava aquele livro, um amor platônico, parecia uma demoníaca sereia encantando um miserável marinheiro lusitano. Não sei por que ele tinha que ser português, simplesmente era.

Assim que consegui juntar algumas inquietas notas amarelas em meu bolso efetuei a compra do livro que ainda teve que esperar impacientemente O enigma de Andrômeda acabar de ser lido.

Lugar_Nenhum

Lugar nenhum conta a história de Richard Mayhew, um jovem escocês que vive em Londres. Um cara chato, com um emprego chato, que está em um relacionamento chato e fadado ao marasmo eterno. Alguma semelhança com Fat Charlie?

No caminho para um jantar importantíssimo com o chefe de sua noiva, Richard tromba com Door. Uma garota ferida, suja e esfarrapada que habita uma dimensão paralela ao mundo real. A Londres de baixo. A partir desta situação inusitada (trocadilho infame?), Mayhew passa a ser invisível para os habitantes do mundo normal, não só invisível, mas parece nunca ter existido. Ele está em lugar nenhum.

Logo que descobre não existir mais, Richard se junta com outros moradores do submundo (literalmente) para, além de ajudar Door a solucionar os mistérios que mudaram sua vida, descobrir como voltar para seu antigo dia-a-dia. Nada, porém, é fácil para o grupo formado por Richard, Door e a caçadora Hunter. Vilões atemporais, entidades malignas e até mesmo divindades teimam em ficar no caminho que leva a algum lugar.

Existem autores de imaginação fértil e existe Neil Gaiman. Um homem completamente a frente de seu tempo. Ou o escritor mergulha em alucinógenos antes de deixar sua caneta escorrer pelo papel, ou é dono daquela mente quase infantil, que se recusa a enxergar os problemas e absorver as responsabilidades da vida adulta, que, inevitavelmente, ofuscam o brilhantismo inicial. Se tivesse que escolher, ficava com a segunda opção.

O cenário criado por Gaiman, como sempre, é quase palpável. A descrição de todos os acontecimentos e a naturalidade como são contados fazem parecer que a história sempre esteve lá, em um lugar escondido de nosso cérebro só esperando para sair, esperando as palavras mágicas deste mago das letras. O mundo de baixo descrito pelo autor é, apesar de extremamente complexo e intricado, muito simples e de fácil entendimento. Os personagens principais são tão bem construídos que é impossível não criar um laço afetivo por Richard e companhia. São como velhos conhecidos em um espesso mar de lembranças. A trama é tão bem elaborada que até virou série de TV na Inglaterra.

15586__neil_l

A narrativa, no entanto, poderia ser melhor. Não sei se foi um problema meu, mas pareci meio sem ânimo para virar algumas páginas do livro. A história se mostrava calma demais, parada demais. Certos momentos da jornada de Richard e Door ficavam quase maçantes. Diferente de outros livros que li.

Lugar Nenhum, assim como os outros trabalhos de Gaiman é mágico. Ele pega uma idéia completamente inverossímil e transforma em algo tão bonito e comum como uma flor que brota em meio ao cimento. Ainda que genial, não possui a desenvoltura de outros escritos do autor, talvez por ser um de seus primeiros trabalhos. Lugar nenhum é amor e ódio, é tudo e nada. Recomendo só para fãs da sensata loucura de Neil Gaiman ou para pessoas de mente muito, muito aberta.

Lugar Nenhum

Editora: Conrad
ISBN: 978-85-7616-265-0
Número de páginas: 384


Resenha: Histórias Extraordinárias

Setembro 21, 2008

Texto publicado originalmente em trabalhos anteriores do autor.

Esta resenha foi originalmente entregue à minha professora de Teoria da Literatura como um dos trabalhos do período passado.

Sempre que pretendo resenhar um filme ou livro, penso nos leitores, já que o jornalismo opinativo, em minha opinião, é leitura para aqueles que não gostam de ler. Pesquisei muito sobre outras análises da obra antes de construir a minha e me deparei com dezenas de textos extensos, resumindo cada conto do volume e criticando-os individualmente. Não queria ser igual, queria analisar a obra como um todo.

Um dos fatores que tenta indicar superioridade em uma universidade pública é o conhecimento. Já vi até mesmo pessoas se referindo a outras pela colocação em que passaram no vestibular. Ridículo. Com isso, vários trabalhos e apresentações são feitos como superproduções, na tentativa de impressionar, além dos professores, os colegas de classe. Uma das resenhas, feita por um de meus “colegas”, foi dessa forma, continha umas dez páginas, capa, folha de rosto e etc. Só faltou um índice. Felizmente, foi recepcionada com a seguinte frase: “Eu gostaria de uma resenha, não um ensaio monográfico”

Histórias Extraordinárias, escrito por Edgar Allan Poe, é uma compilação de contos publicados por Baudelaire na França, em 1842. A editora Martin Claret fez uma edição semelhante à do Poeta francês com um preço acessível a várias camadas brasileiras.

Muitas de suas famosas histórias encontram-se nesse volume, como: O gato preto, Os crimes da Rua Morgue e A carta roubada.

O fator mais marcante nas narrativas insanas de Poe está presente nessa obra. Na medida em que o horror psicológico explora as entranhas da psique humana. Suas histórias são extraordinárias nesse ponto, o medo e a loucura são os verdadeiros vilões em seu mundo. Percebe-se, também, a presença do pensamento analítico nas narrativas investigativas, típico de histórias famosas de detetives como as de Sherlock Holmes.

Depreende-se, assim, com a leitura dos contos, que Poe trabalha com maestria os mistérios da vida e da morte, usando esse fator sempre para envolver seu público em uma ânsia pela próxima página, pela próxima história.

Dessa forma, o que há em Edgar Allan Poe é um talento narrativo e uma forma criadora que inspira e cativa leitores através dos séculos com suas belíssimas escrituras, ricas em detalhes e mistérios. Esta bela obra se torna indicada a todos aqueles adoradores de um dos mestres do gênero gótico e policial da literatura e até mesmo àqueles que ainda não são familiarizados com o autor e se teu trabalho.


H.P. Lovecraft

Setembro 21, 2008

Texto publicado originalmente em trabalhos anteriores do autor.

Não é segredo que minha coluna literária tem sua base montada sobre livros de terror. Até agora priorizei autores nacionais, mas chega à vez de Howard Phillips Lovecraft, alguém sem o qual a ficção de horror não seria a mesma.

H. P. Lovecraft nasceu em Rhode Island nos Estados Unidos no dia 20 de agosto de 1890. Sua obra não teve tanta influência em vida, mas após a sua morte em 1937, o mundo todo se rendeu a maestria da diabólica mente do escritor.

Durante a infância, era um jovem prodígio. Recitava poesias aos dois anos e começou a escrever aos seis. A grande influência em sua vida lingüística foi seu avô, Whipple van Buren Phillips, já que seu pai morava em uma casa de repouso devido a uma crise nervosa. A saúde do autor enquanto criança era muito debilitada. De acordo com os médicos da época, Lovecraft sofria de poiquilotermia, o que deixava sua pele sempre gelada ao toque.

A trágica história de sua família repetiu-se quando o mal que acometeu seu pai caiu sobre ele, um ataque de nervos o impediu de conseguir o diploma do ensino médio e juntamente com a morte de seu avô levou a família a um estado de pobreza lamentável.

Durante seu trabalho como Jornalista, que durou um curto período, Lovecraft conheceu Sonia Greene, com quem viria a casar. A união durou muito pouco, no entanto, o período de divórcio foi o mais produtivo na vida do escritor. Nessa época foram escritas duas de suas mais extensas obras: O caso de Charles Dexter Ward e Nas Montanhas da Loucura.

Seus trabalhos são focados principalmente no subconsciente e no simbolismo, já que a maioria deles foi inspirada por seus constantes pesadelos. A referência a horrores ancestrais e divindades antigas gerou uma espécie de mitologia chamada de Chtulhu Mythos. Expressão essa criada após sua morte pelo também escritor August Derleth.

H.P. Lovecraft, criou durante todos esses anos uma legião mais que fiel de fãs. Algumas músicas foram inscritas tendo como inspiração seus contos fantásticos. Call Of Cthulhu do Metallica e Cthulu Dawn do Cradle Of Filth são bons exemplos. Diferente de Vianco e Magrini, sua narrativa não cria situações de perder o fôlego, é um terror psicológico bem dosado, faz-nos ter medo de virar a próxima página. Seus clássicos merecem permanecer na memória dos adoradores do gênero por muitos anos.